A Soteriologia é o ramo da teologia sistemática que trata da salvação. O termo provém do grego sōtēria, "salvação", e logos, "estudo". Trata-se do estudo de como Deus resgata o homem do pecado e de suas consequências, por meio da obra redentora de Jesus Cristo.
I – O Plano da Salvação
O termo grego para "salvar" é sōzō, com o sentido de: libertar, preservar, curar, trazer a salvo. O verbo "salvar" significa fazer são, restaurar ao estado de saúde e integridade. A salvação bíblica implica uma completa transformação do ser humano — positional, moral e escatologicamente.
A Bíblia usa vários termos relacionados ao conceito de "salvo": libertado, redimido, justificado, reconciliado, regenerado, adotado, santificado e glorificado. Cada um desses vocábulos ilumina uma faceta distinta da obra salvífica de Deus.
II – Os Atos da Salvação
1) Justificação
A "justificação" é objetiva (externa). A palavra "justifica" é termo judicial que significa absolver, declarar justo, ou pronunciar sentença de aceitação.
a) A Natureza da Justificação: Absolvição Divina
Justificação é primeiramente uma mudança de posição da parte do pecador, o qual antes era um condenado; agora, porém goza de absolvição. A justificação é muito mais do que perdão de pecados e remoção da condenação. Deus coloca o ofensor na posição de justo. Ele apaga o passado, os pecados e ofensas, e, em seguida, trata o ofensor como se nunca tivesse cometido um pecado sequer! Deus, ao perdoar o pecador, o declara justificado, isto é, justo aos olhos divinos. (Rm 5.1)
b) A Necessidade da Justificação: A Condenação do Homem
A Bíblia deixa claro o estado moral e espiritual em que se encontrava o homem. Paulo aos Romanos mostra a degradação em que o homem estava eternamente sob condenação: outrora conheceram a Deus (Rm. 1:19,20); falhando em adorarem e servirem, seu coração insensato se obscureceu (1.21,22); a cegueira espiritual os conduzia à idolatria (vr.23) e a idolatria os conduzia à corrupção moral (vrs.24-31). São indesculpáveis porque tinham revelação de Deus na natureza (1.19,20; 2.14,15).
Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.
— Rm 3.19,20
c) A Fonte da Justificação: A Graça
No hebraico, graça hen, demonstrar favor, afeição, comiseração. O termo grego para graça no Novo Testamento é charis, usado para graciosidade, amabilidade, favor. Graça é o favor que se dispensa ou se recebe; favor que não merecemos, mas Deus livremente nos concede bênçãos imerecidas, especialmente com referência ao favor Divino. A salvação é sempre apresentada como dom, um favor não merecido, impossível de ser recompensado; é um benefício de Deus. (Rm.6.23)
Porque pela graça, sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.
— Ef 2.9,10
d) Fundamento da Justificação: A Justiça de Cristo
Deus proveu a justiça "mediante a redenção que há em Cristo Jesus". Redenção (agorazô) é o resgate (lutron) pela libertação por preço pago. Cristo morreu por nós para nos salvar da justa ira de Deus contra nós. Sua morte foi um ato perfeito de justiça, porque satisfez a lei de Deus. O ato pelo qual Deus credita essa justiça à nossa conta chama-se imputação. Imputação (logizomai) é levar à conta de alguém a consequência do ato de outrem.
e) Os Meios da Justificação: a Fé
A fé é o instrumento pelo qual o homem se apropria da justiça de Cristo provida por Deus. Poderíamos dizer que a fé é a mão que recebe o que Deus oferece. (Rm.3.22; 4.11; 9.30; Hb.11.7; Fil.3.9). A fé lança mão da promessa divina e apropria-se da salvação. A doutrina da justificação pela graça de Deus, mediante a fé do homem.
2) Regeneração: "novo nascimento"
Palingenesia — "novo nascimento" (formado de palin, "de novo", e gênesis, "nascimento"). Tg.1.18; I Pe.1.23; Tt3.5; S.Jo.3.5,6. A "regeneração" é subjetiva (interna), trata da vida interna que corresponde à nossa chamada e que nos faz participantes da natureza divina.
a) Natureza da Regeneração
- Nascimento — Deus o pai é quem "gerou"; "nascido de Deus" (I S.Jo.5.1), "nascido do Espírito" (S.Jo.3.8), "nascido do alto" (S.Jo.3.3,7).
- Purificação — Deus nos salvou pela "lavagem da regeneração" (Tt.3.5)
- Vivificação — Somos salvos também pela "renovação do Espírito Santo" (Sl.51.10; Ef.4.23; Rm.12.2)
- Criação — É o resultado prático de uma transformação radical na natureza, no caráter, nos desejos e propósitos. (II Cor.5.17)
- Ressurreição — João Wesley disse: A "regeneração é a grande mudança que Deus opera na alma quando a vivifica; quando ele a levanta da morte do pecado para a vida de justiça". (Rm.6.4,5; Cl.2.13; 3.1; Ef.2.5,6)
b) A Necessidade da Regeneração
Em João três, Jesus não tentou explicar o como do novo nascimento, mas explicou o porquê do novo nascimento. "O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido de Espírito é espírito". Carne e espírito pertencem a reinos diferentes, e um não pode produzir o outro. A natureza humana pode gerar a natureza humana, mas somente o Espírito Santo pode gerar a natureza espiritual.
c) Os Meios de Regeneração
Por ser um ato inteiramente divino e não tendo aparentemente o homem nenhuma participação, estritamente falando, mas o homem pode tomar parte na preparação para esse novo nascimento, se arrependendo e tendo fé. (At 3.19)
d) Efeitos da Regeneração
Posicionais: Através da "adoção" (huiothesia, formado de huios, filho e thesis, "posição", cognato de tithemi, "pôr"; condições de filho dados àquele a quem não lhe pertencem por natureza"). A palavra "adoção" significa literalmente: "dar a posição de filhos". Literalmente é um termo legal que indica conceder o privilégio de filiação a um que não é membro da família. (Rm 8.15; Gl 4.5; Ef 1.5)
Espirituais: Devido à sua natureza, a regeneração envolve união espiritual com Deus e com Cristo mediante ao Espírito Santo. Essa união resulta em novo tipo de vida e de caráter; novidade de vida (Rm.6.4); um novo coração (Ez.36.26); um novo espírito (Ez.11.19); um novo homem (Ef.4.24); participantes da natureza divina (II Pe.1.4) e templo do Espírito Santo (II Cor.6.16-18).
Práticos: A pessoa nascida de novo demonstrará esse fato pelo ódio que tem do pecado (I S.Jo.3.9; 5.18); por obras de justiça (I S.Jo.2.29); pelo amor fraternal (I S.Jo.4.7) e pela vitória alcançada sobre o mundo (I S.Jo.5.4).
3) Santificação
Hagiasmos no grego e no hebraico Kadosh é usado para aludir a separação para Deus; "tornar santo" derivado de hagios, "santo", "separado". Hb.12.14; I Tm.2.15; I Ts.4.7; ICor.1.30. Observa-se que "santificação", "santidade" e "consagração" são sinônimos, como o são: "santificados" e "santos". Santificar é a mesma coisa que fazer "santo" ou "consagrar".
A santificação é tanto objetiva (externa) como subjetiva (interna). De modo externo é a separação do pecado e dedicação a Deus; de modo interno é purificação da contaminação do pecado. A santificação é um processo progressivo — uma obra contínua do Espírito Santo na vida do crente.
- A palavra que acompanha a santificação é a separação (separar-se do pecado)
- Processar-se e a tornar-se progressivo
- Purificação progressiva
- Consagração ao serviço de Deus
O Espírito Santo é o agente da santificação (II Ts.2.13; I Pe.1.2); a Palavra de Deus é o instrumento (Jo.17.17; I Pe.2.2); a fé é o meio (At.15.9; 26.18); e a obediência é a condição (I Pe.1.14-16).
4) Glorificação
A glorificação é a consumação da salvação — a completa e final redenção do corpo do crente na volta de Cristo. "E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou." (Rm.8.30)
Referências bibliográficas
- Teologia Sistemática — Lewis Sperry Chafer
- Dicionário Internacional de Teologia do NT — Colin Brown
- Bíblia de Estudo Pentecostal
- Biblioteca Digital Libronix